
Pode-se pensar que as minhas recomendações para fazer caminhadas ao longo da
Linha do Tua são fruto de alguma consulta na Internet, usando o Google. Não. Já percorri (a pé) cada metro da linha entre
Foz-Tua e
Mirandela, no mínimo 3 vezes e em alguns lugares 6 vezes!
Pensei receber a
Primavera a caminhar ao longo da linha, e foi isso que eu fiz, dia 21 de Março. Escolhi um percurso mais ou menos longo,
Brunheda- Foz-Tua.
Desloquei-me de carro até à ponte da
Brunheda. O céu estava limpo, fazia frio e havia alguma neblina que se manteve durante todo o dia. Cheguei à linha às 10 horas da manhã, o que me parecia muito bom uma vez que apenas necessitava de estar em
Foz-Tua às 18 horas, tinha 8 horas para caminhar.

Nos primeiros quilómetros, e depois de passar a zona do último acidente, apercebi-me que têm sido feitos bastantes melhoramentos na linha. Sempre pensei que aqui estava um dos pontos negros da via, mas, nesta caminhada, fiquei com uma melhor ideia. A não ser a curiosidade de alguns chapins nada chamou a minha atenção nos primeiros metros. O sol não tinha altura para iluminar a linha, reflectindo-se apenas nas águas já transparentes do
Tua. Foi pelo quilómetro 19.º que comecei a entusiasmar-me com a flora que não esperou pela chegada da primavera para despertar em bonitas cores.

No apeadeiro de
Tralhão parei um pouco. Aproveitei para me pôr mais á vontade largando as calças e ficando em calções. Fiquei a saber que andaram a medir as casas e os muros juntos de todas as estações e apeadeiros. Pretendem reparar os telhados e pintar tudo!!!
Pouco depois encontrei mais uma daquelas prospecções enigmáticas. Retiram uma travessa e abrem um orifício no centro da linha. Penso que o objectivo é avaliar a consistência do terreno. Vi os furos que já me tinham chamado à atenção em viagens anteriores, mas não vi nenhuma máquina.

Pouco depois encontrei alguns pés de buxo (
Buxus sempervirens), muito abundante no
Rio Sabor mas que nunca me tinha chamado à atenção aqui no Tua. Também antes de chegar a S. Lourenço encontrei os primeiros pés de
Jacinto-dos-campos (
Hyacinthoides vicentina). O meu entusiasmo foi grande, e ainda mais porque fui encontrando cada vez mais, mesmo até
Foz-Tua!

Quando cheguei ao
S. Lourenço decidi subir às
termas. Nas três vezes que já aqui passei a pé nunca o tinha feito. Junto ao apeadeiro havia muita água no chão e, imagine-se, havia também um cabo eléctrico, no chão, com corrente! O som semelhante a uma frigideira ouvia-se a vários metros! As termas pereceram-me paradas no tempo. Recordava-me delas há quase 20 anos atrás. Há água canalizada, um pré-fabricado para receber os banhistas e uma estátua em granito que foi a única forma humana que encontrei de resto, nada mudou.

Visitei o tanque, guardado pelo
S. Lourenço, fiz um passeio por entre as casas e decidi sentar-me à sombra de uma árvore para comer. Já passava de 1 e meia da tarde quando recomecei a caminhar. De novo na linha, acelerei o passo. Já tinham passado mais de três horas e apenas tinha percorrido pouco mais de 5 quilómetros! Impus um bom ritmo à caminhada só fazendo curtas paragens para fotografar a flora ou subir a algum rochedo para fotografar a Linha. Tinham passado dois meses desde a minha última passagem no local. O rio levava um caudal menor e a água reflectiam um azul profundo, ao contrário da água cor de chocolate do mês de Janeiro.
O céu perdeu a cor e os rochedos semeavam zonas de sombra na linha. Tornou-se complicado fotografar. Se a máquina está regulada para fotografar para jusante, de frente para o sol, não é possível fazer nada de jeito para montante. Gosto de regular os parâmetros da fotografia manualmente, mas é preciso tempo.

Quando me aproximava dos últimos quilómetros também o sol de despedia do vale. Respirava-se uma atmosfera calma aquecida pelos tons dourados do final da tarde. Tive ainda tempo para abandonar a linha e ir até à ponte rodoviária fotografar o
viaduto das Presas.

Já com os pés bastante doridos caminhei para a estação do
Tua. Ainda esperei que chegassem os dois comboios da
Linha do Douro, um vindo do
Pocinho e outro vindo do Porto, só depois o táxi parte fazendo o serviço da
Linha do Tua até ao
Cachão.