quinta-feira, 11 de setembro de 2008

PEV levam Linha de Tua à Comissão Permanente da Assembleia


Declaração política do Deputado Francisco Madeira Lopes (PEV) sobre os acidentes na Linha do Tua, proferida na Assembleia da República a 9 de Setembro de 2008

Sr. Presidente, Srs. Deputados,
A linha de caminho de ferro do Tua sofreu no passado dia 22 de Agosto o seu quarto acidente num espaço de cerca de ano e meio.

Esta situação é absolutamente lamentável, em primeiro lugar pelas vítimas mortais, feridos e seus familiares para quem vão as nossas primeiras palavras.

Mas desde logo porque esta é uma linha que, ao longo dos seus 120 anos de existência, felizmente, pouquíssimos acidentes graves registou (e menos ainda com vítimas mortais).
É uma linha que acompanha o vale do rio Tua e goza de uma paisagem patrimonial única que fazem dela uma das mais belas do mundo, e que, como todas as linhas de montanha, deve dispor das habituais medidas de segurança e de prevenção de risco.

É ainda uma linha que teimosamente persiste em garantir o direito à mobilidade e acessibilidade das populações não permitindo o seu isolamento e constituindo uma porta aberta de oportunidades para aquela região de Trás-Os-Montes.

Infelizmente, esta sucessão de acidentes, inexplicados, é estranha e não deixa de incomodar pela curiosa coincidência no tempo com a intenção declarada de construir uma barragem que sempre será absolutamente incompatível, seja qual for a quota, com a sua sobrevivência por cortar a ligação à linha do Douro e ao resto do país.

Apesar de “Os Verdes” considerarem muito positivas as recentes declarações da Sra. Secretária de Estado dos Transportes que reconheceu a beleza e importância desta linha para a mobilidade da região, revelando uma mudança de postura só possível por quem visitou o local, a verdade é que o Governo continua a defender a construção da barragem ao mesmo tempo que acena com a miragem de alternativas à linha, rodoviárias ou mesmo, uma nova linha, num outro traçado e com outro espaço canal.

Para “Os Verdes” essas pseudo-soluções alternativas só servem para tentar vender a barragem aquela região e desistir da justa luta pela manutenção da linha do Tua, que se encontra geneticamente ligada ao Vale do Tua e com a submersão do qual deixará simplesmente de existir. Para sempre.

É por isso fundamental não permitir que estes acidentes sirvam de argumento para o encerramento definitivo da linha e exigir que nenhuma suspeita fique no ar. É fundamental que toda a verdade venha ao de cima e que a culpa não morra solteira.

Recordamos que, neste momento, após uma grande insistência desta bancada, através de requerimentos, intervenções e um agendamento potestativo em Comissão, só mais de um ano depois do primeiro acidente é que nos foram entregues, tirados a “fórceps”, os relatórios do inquérito ao primeiro acidente!
Como é que é possível, num momento em que a linha foi reparada e sujeita a investimentos, está mais vigiada do que nunca, nem linha, traves, aterro ou encostas, nem material circulante parecem apresentar anomalias, segundo as entidades responsáveis e o Sr. Ministro, um comboio, que circula com marcha à vista, numa recta, com boa visibilidade, descarrilar?

“Os Verdes” lamentam profundamente não poder, já hoje, nesta reunião da Comissão Permanente, interpelar o Sr. Ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações, responsável por garantir a segurança de um dos mais seguros meios de transporte, como propusemos e foi rejeitado, e anunciamos que não descansaremos nesta casa enquanto não forem prestadas todas as explicações e fornecidos todos os elementos que permitam aferir com rigor, clareza e transparência a verdade sobre os acidentes no Tua.

O Parlamento, e mais que isso, as vítimas e suas famílias, as populações, as associações locais e autarcas daquela região e os portugueses em geral têm o direito a conhecer o mistério de derrocadas inexplicadas e de descarrilamentos sem nenhuma causa aparente. O Governo deve explicações convincentes.

Fonte: Pravda

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Ou Tua, ou Rua



Fosse eu homem cá de crendices, e até havia de dizer que anda o mafarrico à solta ali para os lados do Cima Corgo. Quer dizer, está uma linha do comboio, por sinal uma das mais belas do país e arredores, cento e vinte anos sem qualquer acidente digno de registo, e agora num escasso ano e meio, acontecem nela nada mais nada menos que quatro acidentes graves com mortos e tudo.

Num troço curto de uma dúzia de quilómetros, quatro desinfelizes tiveram funesto encontro com a mulher da seitoura, e num fechar de olhos que jamais se descerraram, foram-se encavalitados nas asas do anjo negro, como se andar por ali em maravilhosa viagem de encantos assombrosos fosse do desagrado de quem tudo pode. Mais parece que tal coisa não é para simples mortais.

Quatro horas más em pouco mais de duas mãos cheias de meses. Como de costume cérebros esclarecidos e esforçados encomendaram rigorosos inquéritos a doutas mentes, daquelas que descobrem até a razão de a agulha ter um buraco, mas findas as diligências, ninguém consegue encontrar razão inequívoca para as desgraças. Coisa assim sem explicação, tenho para mim que mesmo só obra de belzebu ou alguém por ele. Cruzes canhoto que se esconjuro, arreda-te para lá chifrudo que até se me arrepia a espinha, só deitar para a tua presença. Credo.

Ainda agora, e depois deste ultimo acidente ocorrido a vinte e dois de Agosto, um punhado de adolescentes desapertou à mão e tirou linha fora parafusos daqueles que parecem dar para apertar o mundo nos seus eixos, mas continua-se sem saber a causa das coisas. Um bem colocado senhor no atapetado do seu gabinete disse que tal desiderato é impossível, pelo que nada me custa acreditar que ou os voluntariosos jovens são marcianos de força descomunal, ou então não passam de uns mariolas que se querem divertir à nossa custa e espalharam parafusos ao longo da via, para depois fazerem de conta que os despertavam. Claro que pode acontecer que o tal senhor não veja estadulho em olho próprio, e aí então a coisa muda de figura. Mas pronto!
Mesmo o facto de naquela linha circularam automotoras nitidamente desadequadas por serem altas e estreitas, nada diz aos esforçados senhores dos inquéritos. São estéticas, tem um ar todo urbano, e logo basta para que sejam tidas como recomendáveis. Dão um ar de modernidade no meio do campo, e só isso pareceu bastar quando alguém decidiu coloca-las ao serviço entre o Tua e Mirandela. À empresa detentora da concessão deu-se-lhe o nome de «Metro» para se dar um ar menos rural, e sem silvos lá se garantiu o funcionamento da linha pelo menos até agora.

Num país que com toda a parolice e contra o correr dos tempos desactivou quase tudo o que era linha de caminho de ferro no seu interior a troco de rodovias mais prejudiciais que benéficas em termos de ordenamento do território, parecia que se salvava assim uma das jóias ferroviárias da rede nacional de comboios. O turismo virou moda, e com ele a linha do Tua ganhou procura e valor. Nada mais nada menos que 40 mil almas passam anualmente pelos bancos das carruagens que circulam ou circulavam a roçar o rio Tua.

O problema, é que a paginas tantas da nossa governação, há já uns anos, os comboios foram mandados parar, e as atenções viraram-se para outros meios de transporte. Desinvestiu-se nas linhas férreas mesmo significando isso o desarticular de uma estrutura importante da coesão nacional. Com a linha do Tua, aconteceu por maioria de razão a mesma coisa. É longe, é no interior, e contam-se por poucos os boletins de voto necessários para quem ela serve em primeira necessidade. Então depois que se concluiu que mais mês menos mês ela é para desactivar, para que atentar nela?

No entanto, continuam sem achar explicação para as desgraças os senhores que mandam e os que buscam as pistas. Para mim, a esses e outros que tais, castigava-os com uns meses de trabalho e de vida naquelas bandas. Era como antigamente quando se dizia aos ferroviários tresmalhados a castigar:
- Ou Tua, ou rua!
Podia ser que esconjurassem a coisa má que anda por lá. Digo eu.

Manuel Igreja; Diário de Trás-os-Montes
Publicado com a devida autorização do autor.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Apeadeiro de Latadas

O apeadeiro de Latadas, no 48.º quilómetro, entre Frechas e Mirandela, há muito se perdeu no tempo. Só algumas ruinas lembram ainda, que, há muitos anos, ali parava o comboio para deixar e apanhar passageiros. Quando por lá passei, na Primavera, a vegetação quase cobria o que restas das casas. Há um açude e restos de um moinho de água.
É um bom local de acesso ao rio, frequentado por pescadores e banhistas.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

A linha do Tua


Viajar pela via-férrea do Tua – talhada a machado por deuses escravizados – é experimentar o efeito alucinogénio de pendurar os olhos numa janela donde se vê o chão do céu. Começou por ser um rio de esperança, a linha do Tua. Um rio de esperança que o sono dos homens afugentou. É, agora, antecâmara das memórias. Um modo ingénuo de gastar o que resta da sola dos sapatos ou, quiçá, o derradeiro sopro antes da nudez. Uma certa ocultação, por intermédio de metáforas, dos suspiros que suspiramos e não queremos. É não entregar o corpo – o corpo do comboio ainda morno – às águias da noite.
Mas viajar no comboio do Tua é, ainda e sempre, uma feira de emoções. Ora sob a luz, coada pelas nuvens rasantes, que vai delindo as arestas daquilo que nos chega, transportando-nos para dentro de um espelho – o espelho baço da noite; ora sob o sol que escorrega, espesso, pelas margens do rio. Como se alguém houvesse derramado sumo de laranja nos bicos das montanhas. Sumo que, por ser espesso, escorre com lentura, sem pressa de se dissolver nas águas do rio.

O viajante busca o sonho, qualquer que ele seja, sabendo que os pesadelos são apenas as curvas da viagem. Aqui, dentro do Vale, nas entranhas de um túnel, apenas a escuridão é palpável. Tal como são palpáveis as sombras quando vivemos dentro do medo.
Mas viajar é, também, entrar em cena sem que algum director, ou quejando, tal nos ordene; desenhar milagres de cruz; mergulhar nos olhos de quem nos vê, e – porque a morte é como Deus, está em todo o lado – tropeçar na barragem que não vemos mas está lá, a joeirar penumbras nos olhos do comboio.
A morte é o epílogo de todas as viagens. Uma vida que é substituída por outra vida que, por sua vez, é substituída por outra vida… até ao além… onde a viagem nunca acaba e, alucinados, perguntamos: ubi veritas?

Jorge Laiginhas
(Transcrito do Diários de Trás-os-Montes, com autorização do autor)

domingo, 7 de setembro de 2008

Testemunhos - 27 de Agosto de 2008


Um grupo de caminheiros da freguesia de Parambos, fez no dia 27 de Agosto de 2008, uma caminhada que incluiu uma grande extensão da Linha do Tua.
Partiram da aldeia e desceram ao vale encontrando a linha junto ao apeadeiro do Castanheiro. Partiram, depois, ao longo da linha, até à estação de Foz-Tua, percorrendo mais de 7 quilómetros de uma paisagem fantástica.

Mais informação e fotografias no blogue - Viver Parambos.

sábado, 6 de setembro de 2008

Muitos porquês...

Não pode haver pior final para o acidente que aconteceu na Linha do Tua no dia 22 de Agosto, do que não se descobrir a razão dele ter acontecido.
Muito se tem falado da falta de manutenção da linha, dos parafusos soltos, nas travessas podres, de uma explosão junto às rodas, etc. Muitas destas teorias são "criadas" pela necessidade de haver desenvolvimentos.

Não podemos por em causa as entidades que estão a proceder às investigações. Esperamos que estejam a ser rigorosas e metódicas, recorrendo a especialistas nas áreas necessárias.
Faltam ainda analisar alguns elementos importantes, como o registo da velocidade da composição e a adequação deste tipo de material circulante a uma linha com as características da Linha do Tua.
Também me parece que deva ser analisado o impacto na linha das obras de instalação de fibra óptica entre o Tua e Mirandela. As máquinas abrem uma pequena vala, com cerca de meio metro de profundidade, onde é enterrado o tubo que ira receber os cabos.

As máquinas que fazem a abertura da vala têm as lagartas revestidas a borracha. Esta protecção deteriora-se com a circulação sobre os carris. Encontrei algumas lagartas "perdidas" ao longo da linha.
Coincidência, os trabalhos de colocação da estrutura de suporte da fibra óptica, decorrem um pouco depois do local do acidente (próximo de S. Lourenço). Na zona do acidente estes trabalhos decorreram nos últimos dias de Julho.
Para os que queremos passear durante muitos mais anos na Linha do Tua, é importante que se descubra a razão de mais este estranho acidente.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

O Verão na Linha do Tua (3)


O Túnel das Fragas Más II, tem a extensão de 38 metros e situa-se numa curva, no final do 5.º quilómetro da Linha do Tua.
Com este túnel, termina um dos locais onde possivelmente foi mais difícil construir a linha. Há um túnel, um viaduto e depois este túnel. Não havia mesmo local onde construir a linha, por isso teve que passar por debaixo da montanha e até suspensa sobre o rio no Viaduto das Fragas Más.
Depois deste túnel, o vale alonga-se, numa curva preguiçosa, num quadro de rara beleza que vale a pena fotografar (não vai faltar neste Blogue).

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Parafusos na Linha do Tua


Quando no dia 24 de Agosto li a notícia de que "Jovens entregam parafusos "soltos" da linha à CP", pensei: - Ora aí está uma ideia interessante, educativa até...
Depois, continuei a pensar no assunto. Pode haver (e há) parafusos soltos ao longo da linha, mas nunca uma grande quantidade e em poucos metro (ou até quilómetros da linha).
Ao contrário do que alguns jornalistas quiseram fazer passar, não é fácil arrancar das travessas os ditos parafusos, mesmo quando estejam parcialmente soltos.

Daí, toca de procurar no meu "arquivo" de alguns milhares de fotografias, algumas que ilustrem o que digo.
A primeira fotografia mostra muitos parafusos "soltos" na linha. Querem saber aonde? Precisamente na estação da Brunheda. A fotografia mostra parafusos que foram substituídos, transportados para a estação e que, por alguma razão, ali ficaram durante algum tempo. A fotografia foi tirada no dia 18 de Julho de 2008, no quilómetro 21.º, ou seja na estação da Brunheda. Não sei se na altura do acidente todos os parafusos permaneciam no local, é bem possível que sim, uma vez que estavam onde não causavam qualquer estorvo. Será que era destes parafusos que os jornalistas falaram?!!
A segunda fotografia foi tirada no dia 12 de Julho de 2008, depois do quilómetro 36.º, já com o Vilarinho à vista. Esta fotografia prova que há realmente alguns parafusos soltos. Os três parafusos que estão cravados na travessa, estão parcialmente soltos, sendo possível retirar um deles com a mão.
Da minha experiência de mais de 100 km a pé pela linha posso dizer que, esta situação de parafusos soltos, é muito rara, não tendo visto mais de dois ou três casos. A falta de um parafuso, principalmente sendo do interior da linha, não acarreta grande risco para a circulação, e se a Refer fazia a manutenção da linha de 15 em 15 dias, estes casos já devem ter sido solucionados há muito.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Eu estive lá...

Desde que comecei a divulgar os meus passeios ao longo da Linha do Tua, tenho recebido mensagens de muitas pessoas que já fizeram o percurso e de outros que pretendem fazê-lo. Há quem viaje de comboio mas também muitos amantes do ar livre, que fazem questão de percorrer a Linha, toda, ou em parte, a pé!
Decidi abrir um espaço para que, todos os que queiram, possam colocar questões, fazer comentários ou partilhar experiências e/ou sentimentos que viveram ao longo da Linha do Tua.
Podem fazer os comentários directamente no Blog, ou mandar-me um email (alinhaetua@gmail.com) com algumas linhas de texto e fotografias para eu publicar, aqui.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Linha do Tua - 54 Km de Primavera



Juntei 108 fotografias, 2 por cada quilómetro de linha, e criei este diaporama a que chamei 54 km de Primavera. Todas as fotografias foram tiradas na Linha do Tua, entre Março e Maio. Procurei um fundo musical à altura e acabei por encontrar um CD antigo da Né Ladeiras, com músicas e arranjos muito bonitos. Parece-me que o conjunto ficou agradável.

domingo, 31 de agosto de 2008

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Túnel de Tralhariz


O Túnel de Tralhariz encontra-se no 4.º quilómetro, muito próximo do apeadeiro com o mesmo nome. É em curva e tem 99 metros.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Túnel de Frechas na Primavera

Túnel de Frechas, na Primavera. Abril de 2008.
Este túnel tem 72 metros e é em Linha recta. Pouco antes da estação de Frechas a linha separa-se do rio, voltando ao seu encontro logo depois deste túnel. À saída do túnel há uma bonita vista sobre o rio, em direcção a jusante. Por cima deste túnel passa a estrada N213.

sábado, 23 de agosto de 2008

EDP pode ter de construir uma linha nova


EDP pode ter de construir uma linha nova, é avançado hoje pelo jornal O Público, na sua edição impressa.
Acontece que uma NOVA linha não é centenária;
acontece que o vale ficará completamente descaracterizado;
acontece que os atractivos em termos turísticos que esta linha oferece, ficarão integralmente debaixo de água.

Ligação à notícia do Público

Estado da Linha do Tua

Embora saiba que é sempre possível fazer melhor, estou em crer que a Linha do Tua nunca teve condições tão boas como as que tem agora. Já falei como muita gente que conhece a linha, alguns há muitas décadas e são eles que contam, o que era a linha e o que é agora.

Em toda a extensão da linha, as travessas estavam apoiadas directamente na terra. Não havia escoamento de água. Quando chovia, a água não escorria, empoçando junto à via causando o apodrecimento das travessas. Actualmente toda a linha está apoiada em gravilha, com bons sistemas de escoamento de água.
Também tem sido feito algum trabalho na sustentação de terras e rochedos da encosta prevenindo a sua derrocada. Apesar de as pessoas acharem que algumas travessas estão velhas, elas são extremamente resistentes. Tem havido substituição das travessas mais velhas.
A condução da automotora é feita à vista, ou seja, a baixa velocidade permite que o maquinista veja a linha à sua frente. Se há curvas a velocidade é lenta o necessário para permitir ver com clareza uma extensão razoável da linha, permitindo ao maquinista parar, se houver algum objecto estranho na linha.

Apesar de haver poucas passagens de nível com cancela (já não há nenhuma com guarda) a automotora apita quando se aproxima de qualquer passagem de nível de estrada ou caminho rural.
É claro que todos estes melhoramentos não evitam todos os acidentes mas previnem grande parte dos riscos.

A Primavera na Linha do Tua (7)

Amor-perfeito selvagem junto à Linha do Tua. O gradeamento é da estação do Cachão.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Acidente na Linha do Tua (Cont.)


Cheguei à ponte da Brunheda poucos minutos antes das duas horas da tarde. O aparato era enorme. A ponte, e a estrada, antes, e depois dela, estavam cheias de pessoas e veículos. Havia muitos curiosos, mas também a comunicação social, bombeiros e INEM.
Segui pelo estreito acesso que desce até ao apeadeiro da Brunheda. Nele encontrei uma equipa de televisão, um elemento da GNR e uma equipa de apoio, alguns elementos estavam identificados como psicólogos.
Segui pela linha. A informação que tinha, dizia que o acidente tinha ocorrido antes do apeadeiro do Tralhão, como conheço o terreno, sabia que seria perto.
Havia muita gente pela linha: homens, mulheres, crianças, polícia e pessoal ligado à Linha. Não encontrei qualquer vestígio dos feridos ou dos paramédicos que os trataram. Na Sobreira, tinham passado por mim, 4 ambulâncias, em direcção a Mirandela.
Havia técnicos a fazer a medição da distância entre os carris. Os sinais na linha de um descarrilamento, eram mínimos! Mesmo antes de chegar ao local do acidente, vi, ao longe, uma automotora que se aproximava, vinda do sul! Cheguei a pensar que ela passaria no lugar do acidente, mas deteve-se a poucos metros dele. Tinha estado parada na estação de Santa Luzia, à espera de ordens para avançar. Destinava-se a levar os passageiros que quisessem continuar a viagem para Foz Tua, mas creio que foi embora vazia, não havia ninguém para transportar.

A automotora acidentada, não se via. Tombou numa pequena ravina, com quatro ou cinco metros de profundidade, do lado da linha encostada à montanha. Esta depressão deve-se ao facto de haver uma que ribeira que vem de perto da aldeia da Brunheda e que passa sob a linha, neste exacto local. Há uma pequena cova e depois a água segue por um aqueduto para o outro lado da linha, e depois para o rio. Na margem oposta, desagua o Rio Tinhela, depois de ter passado pelas Caldas de Carlão.

A automotora dirigia-se de Mirandela para Foz Tua. Saiu de Mirandela às 9:37 horas e deveria passar no local do acidente às 10:45. Transportava 47 passageiros, devendo ser muitos deles turistas.
A comunicação social cita o maquinista que diz ter ouvido uma explosão junto ao eixo dianteiro, no momento do descarrilamento. Não são visíveis quaisquer vestígios nos carris. No local do acidente é impensável atribuir as causas a um deslizamento de terras, até porque estamos no Verão e são as águas que facilitam os deslizamentos de terras.

A automotora deveria ter percorrido uma ligeira curva, muito ligeira mesmo, e não o fez. Os estragos provocados nas travessas, devem-se ao efeito das rodas que por elas seguiram durante algum tempo. A composição não seguiu a direito em direcção à ravina. Seguiu ainda alguns metros com os rodados direitos entre os carris, tombando depois para a ravina do lado esquerdo, quando já seguia a pouca velocidade, quase parada. Esta ideia vem-me unicamente da interpretação das marcas deixadas. Há vegetação que não foi danificada atrás da máquina, logo a composição não passou por aí. A automotora tombou para o lado, no exacto local onde se encontra.
A esquina onde segue o maquinista, embateu nas rochas de suporte do pequeno canal para a água, que passa por debaixo da linha. Custa a crer que o tenha ficado bem!
No momento em que me encontrava no leito da ribeira, foi vedado o local, calculo que para haver mais privacidade para investigadores e técnicos. Não paravam de chegar órgãos de comunicação social.

Voltei à ponte. O aparato tinha-se diluído. Quando a abandonei a estação, já de carro, encontrei muito carros de televisões, protecção civil e INEM, à saída do caminho da estação, na estrada N314.
Ainda subi alguns metros na estrada que segue para Carlão e Porrais, para observar o local do acidente de longe. Chegaram mais dois helicópteros da comunicação social.
Abandonei o local definitivamente, só parando na Ponte de Abreiro. Interroguei-me sobre o futuro da linha. Recordei o acidente ocorrido no aeroporto de Madrid, de que resultaram 153 mortos, palpita-me que não vão encerar o aeroporto...

Localização do acidente na Linha do Tua

O acidente na Linha do Tua ocorreu ao quilómetro 20.º, pouco antes de chegar ao apeadeiro da Brunheda (e depois do apeadeiro do Tralhão). A composição fazia o percurso descendente, ou seja, saiu de Mirandela e dirigia-se a Foz Tua.