domingo, 6 de abril de 2008

Na Linha do Tua - 2


Ontem foi dia de mais uma etapa À Descoberta da Linha do Tua e do Rio. Depois da experiência da primeira etapa que me levou do Cachão à Ribeirinha, pensei na melhor maneira de continuar, em direcção ao Tua. Optei por descer parte da linha na automotora, partindo da Ribeirinha e fazer o caminho de regresso caminhando (2). Depois de estudar um pouco a linha, achei que podia caminhar da Brunheda até à Ribeirinha, e foi isso que eu fiz.
O dia estava bonito, sem nuvens, quente, a convidar para o passeio ao ar livre. Pouco depois das 10 da manhã já estava na Ribeirinha. Estacionei o carro e ainda tive tempo de ir até ao rio tirar algumas fotografias. Às 10:30 chegou a automotora. Transportava 8 viajantes, o condutor, o revisor e um cão. Não era o único interessado em registar as belezas da paisagem em fotografia, havia pelo menos mais três pessoas. Em Abreiro entraram mais 4 pessoas, sem bagagem, com todo o aspecto de viajarem por prazer.

Quase sem dar conta, estava na Brunheda. Desci da automotora e esta continuou em direcção ao Tua. Comecei a caminhada de regresso exactamente às 11 horas. Calculei que percorrer o caminho me levasse 2 horas e 3 para tirar fotografias.
Na maior parte do percurso não há caminho e por isso tinha que caminhar pela linha. Onde fosse possível e interessante, deixaria a linha e desceria até ao rio. Também tinha por objectivo fotografar a flora e fauna. O ano corre muito seco e não há muita vegetação. Com as temperaturas amenas que se fazem sentir, há muitas plantas floridas e por isso não me faltariam motivos para fotografar.
Pensei em subir à ponte para ter uma boa perspectiva da linha e da estação, mas desisti, isso ira levar-me bastante tempo.
A primeira coisa que me surpreendeu, foi a quantidade de vinhas que estão a ser plantadas nas encostas do Tua! Havia muitos grupos a trabalhar em novas vinhas. Ao contrário do que se imagina, existem nas duas encostas do rio muitas terras ainda cultivadas. A maior parte são vinhas, mas há também oliveiras e amendoeiras. A segunda, foi a quantidade de ninhos que há nos barrancos da linha.
Tinha andado cerca de dois quilómetros quando me surgiu a primeira açude. Havia ainda as paredes de uma azenha e como o acesso era fácil, desci ao rio. A construção é grande e robusta. As mós ainda lá estão. Estava eu entretido a tentar fotografar o movimento da água quando um melro-da-água (Cinclus cinclu) vei-o investigar-me. Fiquei excitado, é uma ave difícil de fotografar, não desperdicei a oportunidade. Ao longo de todo o percurso observei muitos cágados, alguns enormes. Estão sempre muito atentos e é difícil aproximarmo-nos deles. Também observei algumas garças-reais, perdizes, melros e melros azuis (Monticola solitarius, como eu). Curiosamente não vi nenhuma ave de rapina.

A segunda açude vim a encontrá-la junto ao apeadeiro de Codeçais. Também aproveitei para descer ao rio e fazer algumas fotografias. Na ombreia da porta da azenha pode ler-se com facilidade os anos de 1879 e 1939. Neste ponto, faz-se a divisão de 3 concelhos: Carrazeda de Ansiães, Murça e Mirandela. Pouco depois de subir à linha, passou a automotora em direcção a Mirandela.
Nesta zona a vegetação é composta por giestas, freixos, choupos, sobreiros e carrascos. Há também algumas estevas, pilriteiros, torgas e gilbardeiras. Os pilriteiros (Crataegus monogyna) estão particularmente bonitos, carregados de flor, branca, miudinha e cheirosa. As plantas anuais e muitas bolbosas também estão em flor, despertando a minha atenção. Isto já para não falar das violetas selvagens que se encontram ao longo do rio, dos pequenos amores-perfeitos selvagens que estão por todo o lado.
Depois de percorrer pouco mais de 5 quilómetros encontrei a primeira ponte. Identifiquei imediatamente o local. Só podia ser a ribeira que atravessa Freixiel a juntar-se ao Rio Tua. Encontram-se à direita da linha, a poucos metros, ruínas de várias casas. Deve ter existido aqui possivelmente alguma quinta. O rio sofre um estreitamento, as águas correm muito agitadas e fazem muito barulho.
Depois de andar 8 quilómetros estava na estação de Abreiro. Já tinha perdido a conta às fotografias, felizmente a bateria ainda estava para durar e, portanto, podia continuar. Após passar uma zona onde vale é mais aberto, depois da ponte de Abreiro, entra-se na zona mais agreste deste percurso. O rio estreitece de tal forma que parece ser possível saltar de um lado para o outro.

Depois da Ponte do Diabo, desci pelas fragas para fotografar alguns rápidos do rio. Esta zona é muito perigosa, deve haver poços com muita profundidade e águas muito violentas. O barulho era ensurdecedor.
Nas frestas das rochas crescem violetas e Jacinto-dos-campos (Hyacinthoides hispânica) com cores tão delicadas que são difíceis de fotografar. As águas agitadas do rio pareciam agora de outra cor.
Cada curva do rio, cada curva da linha, abrem horizontes para infindáveis composições de cores e enquadramentos. Dividi-me entre os grandes planos das encostas, a vegetação que ladeia o rio e as curvas preguiçosas da linha. O tempo foi passando e aproximava-me cada vez mais da Ribeirinha.
Entretanto verifiquei que estava quase na hora da automotora passar de novo em direcção ao Tua. Tomei posição num ponto alto e esperei pacientemente. Às 16:50 a automotora passou, permitindo-me mais algumas fotografias.
Pouco tempo depois a violência das águas foi diminuindo gradualmente. O rio alargou-se e surgiram enormes árvores nas suas margens. A Ribeirinha estava perto! Abandonei a linha e segui mesmo junto à água até chegar à aldeia. As águas estavam calmas e os reflexos da folhagem formavam harmoniosos quadros.

Cheguei à estação já eram seis horas. Ultrapassei em duas horas a minha previsão, mas fiz o percurso sem pressas, descendo ao rio várias vezes e tirando mais de 1300 fotografias. Não senti cansaço, apenas alguma fadiga nas pernas e o pescoço a ferver do sol que apanhou. Fazendo o percurso pela linha seriam mais ou menos 12 quilómetros. Com as voltas que dei, não faço ideia quantos quilómetros percorri.

Já sinto muita vontade de fazer o resto do percurso até ao Tua.

Do Blogue: À Descoberta de Vila Flor

sexta-feira, 28 de março de 2008

Na Linha do Tua - 1


Hoje foi dia de partir à Descoberta. Já há algum tempo que não fazia um largo passeio por terras de Vila Flor. Estive fora uns dias mas o clima também não tem ajudado muito. Felizmente tem chovido alguma coisa mas muito pouco.
A nova máquina fotográfica (Panasonic Lumix DMC-TZ2) chegou por altura da Páscoa, mas ainda mal tive tempo para testar as suas potencialidades.
A aventura foi um pouco diferente do habitual. Fui até ao Cachão de carro; fiz o percurso entre o Cachão e a Ribeirinha a pé e voltei a Vila Flor de carro. Nunca tinha feito uma saída deste género mas pode ser que faça mais no futuro.

O destino do Rio Tua e a Linha do Tua está traçado. Pouco tempo nos resta para gozar as paisagens que nos oferecem. Infelizmente não acredito nos políticos e as promessas não passam disso, promessas. Há quem as esqueça na própria noite das eleições, há quem as faça sem acreditar nelas, há quem prometa para enganar. Vivemos numa época em que a opinião dos outros pouco vale face à inteligência superior que alguns têm, ou julgam ter.
Foi pensando nestas promessas de desenvolvimento que deixei a estação do Cachão. Caminhei ao longo do que resta do complexo nada entusiasmado com o que via. Ao longo da linha escorria uma grande quantidade de água suja e malcheirosa. Pouco depois entrei na tranquilidade da Natureza.




O percurso entre Cachão e Vilarinho das Azenhas pode ser feito por estrada, a poucos metros da linha, mas eu decidi ir pela linha, e, onde fosse possível, aproximar-me do rio.
Neste ponto há altas montanhas para Norte e para Sul sendo cortados a meio pelo rio que, ao longo dos milénios, rasgou o seu próprio caminho. É esta passagem estreita que dá o nome ao lugar, Cachão - local onde a água passa apertada e revoltosa, fazendo bolhas. Conheço lugares com este nome no Rio Douro e no Rio Sabor.

Vêem-se ainda pequenos recantos cultivados. Videiras, laranjeiras, pereiras, macieiras, marmeleiros e bastantes oliveiras são as árvores predominantes. Como árvores selvagens e arbustos encontrei choupos, freixos, salgueiros, sobreiros, urze, giestas, pilriteiro, carqueja, tojo, etc.



Só de vez em quando o sol abria os olhos, cintilando nas folhas juvenis das árvores que ladeiam o rio e dando algum azul à água. Aos poucos minha atenção era desviada para pequenas flores, delicadas, que rompem o manto verde da margem do rio criando um padrão mais colorido. Não faltavam aves saltando de ramo em ramo. Os passeriformes como o pintassilgo, o verdelhão, o tentelhão, o milheiro apareciam por todo o lado. Avistei também um gaio, uma ave de rapina que não consegui identificar, um corvo-marinho e uma garça. Os melros também saltavam nos silvados. Quase já em Vilarinho das Azenhas descobri um ninho com alguns ovos.
Ao chegar perto da ponte de Vilarinho das Azenhas, deixei a linha do comboio. A partir deste ponto, há quase sempre um caminho entre a linha e o rio. As imediações da ponte são muito procuradas pelos pescadores, hoje estavam três pescadores no local.

A caminhada foi perdendo o ritmo. A água neste troço corre mais calma. As represas que alimentavam as várias azenhas, continuam a amansar as águas. Quando nos aproximamos delas o som da água que se precipita ultrapassando as barreiras, dá um ar bucólico, um som que não cansa, mais relaxante do que música clássica.
Fui acordado do meu êxtase pelo som da automotora que descia de Mirandela ao Tua! Tanto queria estar a postos quando a automotora passasse que acabei por me esquecer dela!
Fui seguindo lentamente ao longo do rio, já conhecia o caminho. Segui-o pelo menos duas vezes, durante o ano de 2007. Se não fosse o adiantado da hora, teria passado horas e horas espreitando cada curva do rio, cada tufo de flores, os ninhos, os montes e as hortas que me receberam à chegada à Ribeirinha.
Percorri aproximadamente 8 km. Apesar do céu escuro e da pouca luminosidade, foi um passeio muito agradável.

Do Blog: À Descoberta de Vila Flor

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Estações e apeadeiros da Linha do Tua

000,0km - Tua (Linha do Douro)
004,3km - Tralhariz (Apeadeiro)
007,6km - Castanheiro (Apeadeiro)
013,4km - Santa Luzia
015,6km - São Lourenço (Apeadeiro)
017,8km - Tralhão (Apeadeiro)
021,2km - Brunheda (Apeadeiro)
025,1km - Codeçais (Apeadeiro)
029,3km - Abreiro
033,9km - Ribeirinha (Apeadeiro)
038,8km - Vilarinho (Apeadeiro)
041,9km - Cachão
045,0km - Frechas
048,5km - Latadas (Apeadeiro)
054,1km - Mirandela
055,2km - São Sebastião (Apeadeiro)
058,2km - Carvalhais

061,1km - Vilar da Ledra (Apeadeiro)
065,3km - Avantos (Apeadeiro)
067,2km - Romeu
074,1km - Cortiços
078,9km - Grijó
082,8km - Macedo de Cavaleiros
085,3km - Castelãos (Apeadeiro)
089,3km - Azibo
091,8km - Salselas (Apeadeiro)
094,6km - Valdrez (Apeadeiro)
096,9km - Sendas
099,3km - Vila Franca (Apeadeiro)
100,8km - Chãos (Apeadeiro)
101,8km - Fermentãos (Apeadeiro)
104,6km - Salsas
110,3km - Rossas
117,1km - Sortes
119,8km - Remisquedo (Apeadeiro)
122,1km - Rebordãos (Apeadeiro)
125,6km - Mosca
133,8km - Bragança

A Linha do Tua liga a estação de Tua (Linha do Douro) à estação de Bragança, numa distância total de 133,8 km.
A linha encontra-se em funcionamento apenas no troço Tua - Carvalhais. O troço Carvalhais - Bragança encontra-se encerrado a todo o tráfego ferroviário desde 1991.
A linha actualmente apenas se encontra activa no troço compreendido entre a Estação do Tua e Estação de Carvalhais, sendo o troço entre a Estação de Mirandela e a Estação de Carvalhais explorado pelo Metro de Mirandela e o troço entre a Estação de Mirandela e a Estação do Tua explorado pela CP com colaboração com o Metro de Mirandela, circulando unidades pertencentes a este último.

domingo, 20 de janeiro de 2008

Afogar um rio

Este pequeno pedaço de natureza é o Rio Tua logo por cima da ponte na Brunheda. Vemos a estação do comboio e um pequeno troço da linha.
Está quase certo que vão afogar o rio e a linha. Os autarcas que temos estão preocupados em fazer um bom negócio! "Vendem" a linha do comboio, vendem o rio, vendem a alma, só não sei a troco de quê. Chalaças de desenvolvimento estou farto de ouvir. Estamos tão longe que até o desenvolvimento não descobriu como cá chegar! Agora alguns políticos inteligentes, descobriram que temos que ser solidários com o país. Quando é que a EDP começa a ser solidária?

Do Blogue: À Descoberta de Carrazeda de Ansiães