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sexta-feira, 20 de março de 2009

De Abreiro a Brunheda

Depois de ter deixado terminar o Outono sem ter percorrido a Linha do Tua de Foz-Tua a Mirandela, não quis que o mesmo se passa-se com o Inverno. Por isso, no dia 12 de Março, aproveitei a tarde para fazer mais uma caminhada na linha. Não gosto muito de iniciar as caminhadas à tarde, não há nada como o céu azul da manhã para se conseguir fotografias com impacto.
Cheguei à estação de Abreiro às três da tarde. Estudei a etapa até Brunheda (8,1 Km), para fazer em pouco mais de três horas. A dificuldade destas etapas, para não necessitar do apoio de ninguém, é acertar com os horários do táxi, que agora só já têm três percursos diários. Ainda pensei que poderia voltar para Abreiro a pé, mas seria completamente impossível.
Perto da ponte de Abreiro andavam a trabalhar na linha. Pelo que pude perceber, o trabalho consistia na limpeza de alguma vegetação invasora, mas também na furação das travessas e mudança do tirefonds de lugar. Os anteriores furos são tapados, para impedir que a travessa apodreça depressa.
Fui encontrar aqui as campainhas (Narcissus triandrus) que eu sabia existirem mas que ainda não tinha encontrado. Mesmo sem ter chegado a Primavera, já há muita vida e muita cor na vegetação.
O passeio até à ponte da Cabreira é muito agradável. Foi a sexta vez que fiz este percurso a pé e sempre tive dificuldade em fazer fotografias entre a ponte da Cabreira e o apeadeiro de Codeçais. A zona é muito sombria e o sol a iluminar o cume dos montes só dificulta. Houve alguns momentos de desânimo.
A torga (Erica arborea L) está em flor. Talvez a sua tonalidade alba tenha inspirado um casal de namorados que por ali passeavam, apaixonados. Depois passar o apeadeiro o rio iluminou-se. Apesar do sol estar cada vez mais baixo, a paisagens muda bastante, sendo visíveis muitos vinhedos, alguns novos. Esta é a zona em que uma possível barragem pode causar mais danos em terrenos agrícolas.
Continuei a de dedicar atenção há flora. No barranco da linha aparecem muitas espécies em flor! Até um ramo de violetas (Viola odorata) apareceu para aromatizar a minha tarde!
Foi já quando o sol pareceu pousar na linha à minha frente, no horizonte, por sobre os carris, que me comecei a entusiasmar verdadeiramente com a fotografia. Não são boas condições, fotografar em contraluz, mas é um óptimo desafio. Perdi a pressa, deixei-me levar pela luz doce, embalado pelo barulho das águas e pelo canto dos pássaros que se despediam do dia com doces melodias.
Às seis da tarde cheguei ao apeadeiro da Brunheda. Assaltava-me a dúvida se teria ou não transporte para Abreiro. Desviei-me da linha e subi a encosta procurando sinal de telemóvel.
Com alguma dificuldade consegui ligação com um dos taxistas que faz o serviço da Linha do Tua. Estava com sorte, o táxi passaria pouco antes das dezanove horas. O tempo foi passando e veio a noite. O meu receio era que o táxi não parasse e eu com a luz dos faróis não conseguia distinguir o táxi de qualquer outro carro.
Quase às dezanove horas o táxi parou! Curiosamente já trazia 4 passageiros. A viagem de volta à estação de Abreiro foi rápida e sem história. A noite tomou conta de tudo, apenas brilhavam os carris na minha memória, da cor do ouro.

terça-feira, 10 de março de 2009

Mirandela-Cachão, a pé


Dirigi-me para o Cachão quando o sol pintou de vermelho a capelinha no cabeço da Senhora da Assunção. O dia ia estar fantástico, pressenti isso mesmo quanto perscrutei o horizonte lá para os lados da serra do Reboredo ainda antes do sol nascer.
Lá ao fundo do vale, onde o Tua serpenteia, havia várias colunas de fumo espesso. As indústrias têm os seus senãos e a poluição atmosférica é um deles.
No Cachão ainda tive tempo para tomar um café, a automotora ainda não tinha chegado, o que aconteceu poucos minutos depois das sete da manhã. Delineei a etapa como começando em Mirandela, pelo que me desloquei de automotora entre o Cachão e Mirandela, deixando o carro no Cachão.
Depois de chegar o táxi (percurso Ribeirinha-Vilarinho-Cachão), a automotora partiu pachorrentamente para Mirandela. O sol, ainda a medo, pintava de cores quentes as copas das árvores. A viagem não durou nem meia hora. Quando cheguei à estação já o dia estava luminoso e o céu impressionantemente azul.
Gastei alguns minutos deambulando pela estação, não se via vivalma! Comecei a minha caminhada quando fui surpreendido com os reflexos da cidade no rio. Nunca até esse momento tinha compreendido tem bem a expressão “Princesa do Tua”! A luz da manhã, a calma das águas do Tua e o silêncio da cidade, favoreceram o tal clima de intimidade necessário para uma boa fotografia. “Perdi” mais de uma hora, só fotografando o rio!
Sem pressas iniciei a minha caminhada em direcção ao Cachão. Os mais madrugadores aproveitaram a frescura da manhã para alguns trabalhos nas hortas. Podam-se os pessegueiros, plantam-se as batatas, colhem-se os grelos antes que as flores desabrochem no seu amarelo intenso.
A caminhada foi-se fazendo matizada em quatro cores: o amarelo dos grelos e do manto de flores no olival; o azul do céu que se fundia com o das águas do Tua e o verde; verde das oliveiras e das searas. A estas três veio juntar-se o branco imaculado das nuvens que se fundiam aqui para tomarem formas bizarras mais além.
A automotora passou de novo em direcção ao Cachão.
O sol queimava a pele, pouco habituada ao ar livre. Pouco depois do Choupim desci ao rio, coloquei-me no meio do pontão desafiando as águas que passavam agitadas. Só as aves me faziam companhia. Apeteceu-me ficar por ali sentado à sombra a saborear o ar bucólico do lugar, mas voltei à linha.
Pouco depois estava no apeadeiro de Latadas. A minha atenção centrou-se num campo atapetado de margaridas. Rebolei-me no chão procurando o melhor ângulo, até que, satisfeito, recomecei a caminhada. Era quase meio-dia e pouco tinha ainda percorrido.
Para completar a má impressão que já tinha da fábrica de óleos que está implementada nesta zona, bastou olhar para a “água” que a mesma lança para o rio. Será desta água que se pretende fazer uma reserva com a barragem no rio Tua?!
A automotora passou de novo para Mirandela e pouco depois cheguei ao Túnel de Frechas. Perto da ponte da Carvalha foram as amendoeiras em flor que chamaram a minha atenção. Já são poucas as amendoeiras em flor, mas começam já a aparecer floridas as ameixoeiras e os pessegueiros.
À uma da tarde estava na estação de Frechas. Essa era a hora em que previa estar de regresso a casa para o almoço, mas entusiasmei-me de tal forma que estava bastante atrasado. Felizmente carregava na mochila alguns mantimentos, os suficientes para me animar mais alguns quilómetros.
A passo lento, mas sem grandes demoras, fui-me aproximando do Cachão. No rio ainda encontrei bastantes corvos marinhos e garças, mas são tão desconfiados que não permitem a aproximação de forma facilitar alguma fotografia.
Cheguei ao Cachão perto das duas da tarde. A caminhada andou à volta de 12 quilómetros. Foi a quarta vez que fiz este percurso, mas nunca me senti tão entusiasmado como nesta caminhada de Inverno!

sábado, 7 de fevereiro de 2009

A caminhar de Brunheda até Foz Tua


As mais recentes notícias sobre o futuro da linha do Tua lembraram-me que eu ainda não fiz a habitual “reportagem” da minha última caminhada. Aconteceu no dia 24 de Janeiro e decorreu entre Brunheda e Foz-Tua. Esta caminhada insere-se naquilo que eu chamo como o Passeio de Inverno, numa tentativa de percorrer a extensão da linha que vai de Foz-Tua a Mirandela, durante os meses de Inverno.
Houve algumas alterações nos horários dos táxis que fazem o serviço da linha, e, nesta etapa, eu necessitava de os utilizar. Mais uma vez desloquei-me para a estação de Abreiro onde cheguei pouco antes das 10 da manhã. Podia arriscar partir dali, mas não o fiz porque achei que não tinha tempo suficiente para chegar ao Tua com luz do dia. Pouco depois chegou o táxi, que já vinha do Cachão.
Eu e um jovem éramos os únicos passageiros. Surpreendi o motorista quando lhe disse que ia para o Tua mas descia na estação da Brunheda. Às 10:45 estava sobre a ponte rodoviária a começar a descer para a linha.
A noite do dia 23 foi repleta de rajadas de vento fortíssimas. Mesmo ao longo da estrada encontrei muitas árvores caídas, algumas de grande porte. Também a chuva caiu com velocidade e em quantidades assustadoras. A água do rio corria turva e com redemoinhos pouco habituais.
Comecei a minha caminhada em direcção ao Tua com 8 horas disponíveis. Sabia por experiências anteriores que eram suficientes, mas nunca se sabe o que vamos encontrar ao longo de 21 km. O principal risco da viagem era sem dúvida o estado do tempo. Depois da tempestade da noite anterior, anunciavam-se novas réplicas, e, caso me surpreendessem a meio do caminho, não havia outra alternativa senão seguir em frente, até chegar ao final da linha.
O ar estava muito frio, talvez 5 graus, mas o céu abria-se num azul profundo, fazendo-me esquecer os riscos, encantando-me com o verde da paisagem, apesar de estarmos no Inverno.
Em poucos minutos passei o local do acidente de Agosto passado. Há poucos vestígios dele. Se não tivesse estado ali no próprio dia, talvez não me apercebesse do que ali se tinha passado.
Ao quilómetro 19.º a linha está mesmo em péssimas condições, mas hoje vou apenas falar das coisas boas.
Quando me aproximava do apeadeiro de Tralhão, acenderam-se as fogueiras na outra margem. Os ranchos de azeitoneiros preparavam o fogo para aquecerem o almoço. Curiosamente esta zona onde existem ainda alguns olivais em exploração chama-se Erva Má!
Decidi também fazer o levantamento da rede de telemóvel ao longo do percurso. Depois do acidente de Agosto foi comentada a colocação de um retransmissor em território de Alijó para melhorar a comunicação no vale. A minha rede é a Vodafone, mas ainda não tinha detectado qualquer sinal de rede.
Apesar da estação, algumas flores teimam em florir em plena época fria, é o caso da candeia (Arisarum vulgare). Outras, com os bolbos cheios de energia, começam a crescer em força, preparando-se para um início de Primavera em beleza. Nesta zona há muita cebola-albarrã (Urginea maritima), gladíolos (Gladiolus illyricus), jacinto-dos-campos (Hyacinthoides hispânica), etc. Antes de chagar ao S. Lourenço ainda me deliciei a fotografar alguns fungos que crescem nos troncos dos carrascos e sobreiros.
Junto à estação de S. Lourenço havia uma enorme árvore caída, atravessada na linha.
A formação rochosa que existe ao quilómetro 15º é única na linha e chama a atenção de todos os que por ali passam, a pé ou de automotora. Demorei algum tempo procurando os parâmetros de exposição adequados para registar o quadro. Não é fácil fotografar na Linha do Tua. A linha mergulhada nas sombras e os raios de sol que fazem brilhar as encostas mais acima, criam dois campos com luminosidade tão distinta que obrigam a esquecer todos os mecanismos das câmaras modernas, marcando os parâmetros da fotografia manualmente, ajustados em várias tentativas.
Pouco depois de se atravessar um “canal” rochoso onde mal há espaço para a linha, começam a ouvir-se as águas agitadas já próximas do Amieiro. No rio há uma pequena cachoeira, mais evidente quando tem um menor caudal.
Passaram algumas nuvens negras por sobre a minha cabeça, que me obrigaram a acelerar o passo. Quando eram duas da tarde, faltavam-me percorrer 12 quilómetros. Assaltou-me a ideia da noite e segui mais rapidamente fazendo menos paragens para tirar fotografias. Nem para comer alguma coisa parei, contentando-me em saborear o “almoço” com a cadencia das travessas.
Foi nesta zona que vi duas lontras, numa outra caminhada. Segui com atenção ao rio, mas não vi nada de semelhante. Pouco depois o sol brilhou de novo.
Depois da ponte de Paradela a linha ganhou magia. A humidade no ar reflectia a luz criando uma atmosfera que não vi em viagens anteriores. De cada vez que o sol penetrava por entre as nuvens, iluminava os musgos cheios de verde, embriagados de água que pingava em cada rochedo. Descobri logo a seguir que percorrer os túneis, durante o Inverno, não é tão fácil assim, principalmente os mais longos. Quando são em curva, há um momento em que se fica em completa escuridão.
Ao quilómetro 8.º apercebi-me pela primeira vez de uma ribeira que caía em cascata. Numa cota superior à linha há várias ruínas. São moinhos de água, na Ribeira Grande que recolhe água junto do Castanheiro e Parambos. Também no Rio Tua há vestígios de moinhos, mas encontravam-se completamente cobertos pela água. A provocadora praiazinha de areia branca também se encontrava completamente submersa.
Voou da água do rio uma ave completamente branca! Tinha contornos de ave de rapina e voava com majestade. Não era uma garça, fiquei intrigado.
O vale foi ficando cada vez mais sombrio à medida que me aproximava do Túnel das Fragas Más II (túnel do Boitrão nas cartas militares). Depois dos dois túneis, vem outra das curiosidades da paisagem: um conjunto de cascatas com várias dezenas de metros por onde a Ribeira de S. Mamede de Ribatua se precipita no rio Tua.
Passeio o túnel de Tralhariz e o apeadeiro com o mesmo nome. A luminosidade ia diminuindo, aproximando-se uma tormenta. No quilómetro 3.º havia máquinas para obras na linha. Não cheguei a perceber que tipo de melhoramento andavam a fazer. Desde o apeadeiro do Tralhão que me apercebi que havia travessas marcadas. As máquinas que aí encontrei permitem mudar as travessas, só não percebi porque razão todas as travessas marcadas estavam em muito bom estado e ao lado havia travessas completamente podres que não estavam marcadas! Fiquei com a ideia que poderiam estar a retirar as travessas para fazerem algum tipo de teste ao terreno, no centro da linha, uma vez que as marcações se encontravam espaçadamente distribuídas ao longo das curvas.
Ao quilómetro 2.º começou a chover. Eram 5:20 horas, já mal dava para tirar fotografias. Não foi nada agradável atravessar a ponte das Presas; estava escuro e a chover. Aproveitei o túnel para vestir uma capa de água e, com muito jeito, caminhei ao longo do estreito passeio metálico, com medo de escorregar.
As fotografias do último quilómetro já foram tiradas com a sensibilidade da máquina a ISO 1600, só para recordar. Quando cheguei a Foz Tua eram 17:50horas. Segui para o chefe de estação para lhe comunicar a localização de alguns objectos que encontrei ao longo da linha, fruto de tempestade da noite anterior. Assim, ele poderia contactar Mirandela avisando as equipas que andam a trabalhar na linha e que recomeçariam na segunda-feira de manhã.
O aspecto das linhas da via estreita na estação do Tua está completamente mudado. As obras ainda não estavam terminadas, mas fotografei um estradão onde antes estava a linha! As composições abandonadas estão cada vez mais vandalisadas.
Pouco depois das 18 horas chegaram duas composições da Linha do Douro. Saí da estação à procura do táxi, que prontamente partiu, comigo e mais uma senhora idosa que estava de visita à sua terra natal, Brunheda.
No regresso descansei os músculos. Passei 8 horas a andar. Não foi tão cansativo como quando fiz o mesmo percurso na Primavera. Apesar de todas as minhas preocupações com o mau tempo, acabei por beneficiar de um dia bastante aceitável.
Quando ao sinal da rede de telemóvel, conto colocar um post específico para falar disso. Só há sinal de qualidade entre o 7.º e o 9.º quilómetros. Talvez se consiga ligação também entre o 3.º e o 7.º quilómetros. Na estação de Foz Tua e desde o túnel da Falcoeira (9.ºkm) até Brunheda (21.º km) não há qualquer sinal (rede Vodafone).

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Rio Tua e Tinhela


Esta é a paisagem que se pode observar entre o apeadeiro do Tralhão e a estação da Brunheda. Foi a zona onde ocorreu o acidente de Agosto passado.
Na fotografia do canto inferior esquerdo vemos o local onde o Rio Tinhela encontra o Tua. Um pouco mais acima estão as Caldas de Carlão, resultantes de um conjunto de falhas. Este conjunto de falhas dão origem a várias fontes, cada uma delas com nomes curiosos, como por exemplo a Nascente dos Olhos ou a Nascente do Estômago. A água sai da terra de diferentes profundidades e a temperatura variável conforme a fonte (entre 20 e 29 ºC).
É um lugar que merece uma visita, quer pela beleza da paisagem, quer pela qualidade da água para banhos (Bicarbonatada Sódica Sulfúrea).

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Reflexos do Tua

Tenho estado à espera que o Outono se torne bem visível ao longo do vale do Tua para fazer mais alguns passeios pedestres ao longo da linha. No dia 23 de Outubro tive disponibilidade de ir verificar como realmente estão as coisas.
Cheguei à estação de Abreiro exactamente às 15 horas. Apesar de ser relativamente cedo, o sol tocava já o alto dos montes, mergulhando a linha nas sombras. Vai ser mais complicado percorrer a Linha do Tua durante o Outono e Inverno - Pensei eu. Mesmo assim, decidi fazer um curto passeio até à ponte da Cabreira.

A linha, sem movimento, pareceu-me moribunda, já com os carris cheios de ferrugem. Concentrei a minha atenção no rio, procurando fotografar os reflexos dourados com que, pouco a pouco, o vale se ia cobrindo.
Apesar do frio, muito frio, há ao longo da linha condições climáticas privilegiadas e encontrei algumas plantas em flor. Também o espinheiro deu uma amostra de cor, com os seus frutos bem vermelhos.

Encontrei vários Corvo-marinho-de-faces-brancas (Phalacrocorax carbo). Apesar de não serem muito frequentes em bando, já os avistei várias vezes no Rio Tua, no Rio Sabor e vi um grande bando na barragem de Fontelonga, em Carrazeda de Ansiães.
A garça real (Ardea cinérea) também é uma presença habitual nestas paragens.
Quando cheguei à ponte da Cabreira já pouca luz havia para tirar fotografias, mas ainda era relativamente cedo, quatro da tarde. Decidi andar mais um pouco até ao apeadeiro de Codeçais. Entreti-me a fotografar os reflexos no rio, pareciam pinturas a aguarelas!

No apeadeiro, desci ao rio junto da açude que alimentava uma azenha. Um melro d’água (Cinclus cinclus) lançou um estridente alerta à minha chegada. Esta simpática ave, de peito alvo e dorso escuro, faz-me lembrar uma carriça (em ponto grande). Avancei para o meio do rio, pisando as pedras do açude, a fim de fotografar os últimos raios de sol que douravam a vegetação a jusante. O melro d’água voou perto de mim mostrando que aquele território lhe pertencia. Sentei-me nas rochas saboreando o momento e a agitada ave não se coibiu com a minha presença. Mergulhou uma vez e mais outra na espuma da cachoeira. Olhava-me com vaidade como que dizendo: – Estás a ver do que sou capaz? Nunca tal me tinha acontecido!

Um outro melro passou em voo rasante e uma alvéola-amarela (Motacilla flava) mostrou-se enciumada, posicionando-se também para a fotografia. Infelizmente a luminosidade já era pouca e também não consegui avançar mais para o centro do rio. Fiquei no local durante mais de meia hora. Quando as sombras cobriram todo o vale, só brilhando o cume dos cabeços empreendi, a toda a pressa, a viagem de regresso à estação de Abreiro.
Cheguei à estação às 7 da noite, já as trevas tomavam conta de tudo.

A paisagem da zona que percorri não apresentava ainda as cores de Outono que procurava. As fotografias retratam sobretudo o rio, mas a linha e o rio são indissociáveis, duas janelas para olhar o mesmo vale.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

de novo, pela Linha do Tua

Tinha marcado o reencontro com a Linha do Tua no próximo Outono, mas, fiz-lhe uma visita no Domingo passado, e hoje voltei, para um passeio, juntamente com os meus filhos.
Escolhi um percurso curto, mas com elementos suficientes para motivar os jovens na caminhada: da estação de Abreiro ao apeadeiro da Ribeirinha. São 4,6 quilómetros, sem pontes nem túneis, que incluiu os dois tipos de paisagem mais marcantes que se podem encontrar ao longo da linha: escarpas rochosas com a linha “talhada” a pulso, terminando na Ribeirinha com a linha entre olival e vinhas.

Chegámos à estação de Abreiro às dez e trinta da manhã. O tempo estava bom. O céu apresentava-se sem nuvens, mas o dia estava fresco, permitindo uma caminhada agradável. Depois de algumas recomendações, seguimos caminho.
O sol batia nas rochas criando grandes contrastes de luminosidade. As ruínas da “ponte do diabo” e a lenda que lhe está associada, cativaram a atenção dos mais novos e ajudaram na motivação.

Depois de uma zona rochosa, onde a água tem dificuldade em passar, estão os restos de um açude, junto à foz da Ribeira do Carneiro. A partir daqui as águas estão calmas, criando um espelho de água natural, que, de certos ângulos, reflectia o azul do céu.
O quilómetro trinta e um é o meu preferido deste percurso. As formações rochosas da margem direita do rio parecem castelos esculpidos em granito onde reina o melro azul. Os espinheiros cobriram-se de drupas, de um vermelho vivo, que apetece trincar. Na verdade estes pequenos frutos são comestíveis! A sua cor viva é um desafio à fotografia, neste período em que não abundam as flores, que tanto gosto de fotografar.

Escalámos uma formação rochosa entre a linha e o rio, que nos permitia uma boa perspectiva. É um local onde subo habitualmente. É um “miradouro” fantástico. Tal como junto à estação de Abreiro, havia pelo menos três pescadores à linha, espalhados pela margem, nesta zona onde as águas já estão de novo agitadas.
A fonte onde me reabastecia de água (aos 31,4 Km), está quase seco, só pinga.
Depois do quilómetro trinta e dois a linha separa-se do rio. Vêm-se ao longe as casas de Barcel. Cheira a uvas maduras e ao longo da linha há muitas oliveiras. Também há uma planta mais estranha, em que muito poucos repararão, é o sumagre. Neste momento está com as sementes cheias e as folhas verdes. Em breve se vão pintar de laranja e vermelho, que eu tanto gosto.

Ao aproximar-nos do apeadeiro da Ribeirinha, questionei a equipa, se queriam fazer o caminho de regresso a Abreiro, ou se telefonávamos ao “carro de apoio”. Era quase uma da tarde e a fome já se fazia sentir. Contente por os ter feito esquecer a televisão e o computador durante uma manhã, acedi a terminar ali o nosso passeio colectivo.
Encontrámos o sr. Abílio, que nos recebeu com alegria. Já se habituou às minhas andanças pela linha e não me deixa sair dali sem umas garrafinhas de água fresca, um saquinho de verduras da horta ou de frutos da época. É um exemplo de bondade.

Deixei os filhos à espera de transporte e regressei sozinho, pela linha, a Abreiro. Como sempre acontece, perdi a noção do tempo, a sensação de fome, a necessidade de chegar. Passava das três da tarde quando cheguei à estação e regressei a Vila Flor.


do Blogue: À Descoberta de Vila Flor

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Cachão - Mirandela (II)

No dia 29 de Julho voltei à Linha do Tua. O objectivo era completar a segunda volta à linha, desta vez em pleno Verão, para poder comparar com aquela que tinha feito na Primavera.
Cheguei ao Cachão, pouco depois das 10 horas. Desta vez não dependia da passagem da automotora. Andava uma pessoa a arrancar algumas ervas nos passeios da estação e, numa curta conversa, fiquei a saber que o troço entre Frechas e Mirandela se encontrava em obras de melhoramento. A Linha do Tua estava toda assente em terra, mas, a situação foi sendo melhorada ao longo dos últimos tempos. Já tinha reparado que o troço mais envelhecido, era entre Frechas e Mirandela, exactamente aquele que se encontra agora em obras.
Esta informação aguçou a minha curiosidade. Na viagem que aqui fiz a 25 de Abril de 2008, tirei fotografias fantásticas, com as papoilas a invadirem a linha. Dá-me ideia que essas imagens nunca mais se vão repetir.

O quilómetro 42º acompanha a estrada N213. Foi uma zona em que tirei boas fotografias. O aspecto estava completamente diferente. Ladeavam a linha duas faixas de ervas completamente ressequidas, com sementes que se prendiam à roupa, lutando pela sua disseminação. Até o bonito jardim de uma moradia que existe sensivelmente a meio desse quilómetro, estava um pouco mais desleixado do que o habitual. Tinha muitas rosas secas.
Um pouco mais à frente reencontrei um casal de aves de rapina que habita esta zona. Estou em crer que se trata de um casal de milhafres-reais (Milvus milvus). Há outro casal de aves de rapina que nidifica entre a Ribeirinha e o Vilarinho das Azenhas, este deve nidificar aqui. Também, logo a seguir a Latadas, há um troço de rio muito largo, com muita água, onde, penso existir mais um casal residente.
Com o céu sem nuvens, o Faro parecia-me ali perto. Este monte fascina-me! Gosto muito de fotografar a linha com o monte a fazer de fundo. Parece até que estamos numa paisagem do centro ou norte da Europa.

Pouco depois avistei as o Bairro Nossa Senhora de Lurdes, em Frechas. Ao chegar à estação, não pude deixar de reparar nas ruínas em redor. Houve um tempo em que a linha era o principal acesso a estas terras. À volta das estações da linha cresciam comércios, pensões e armazéns, conforme a população que serviam. Por exemplo, o Cachão, era o ponto de entrada para o concelho de Vila Flor. Havia um serviço de autocarro entre Cachão e Vila Flor, mas já antes, esse percurso era feito a cavalo. Com a melhoria das estradas, o comboio foi perdendo importância e as infra-estruturas existentes foram sendo abandonadas. Em Frechas, não era difícil manter as casas de banho da estação operacionais, mas agora estão vandalizadas. Quando retomei a marcha apercebi-me que estava quase na hora de passar a automotora. Já não me dava tempo para chegar ao Túnel, por isso abandonei a linha e decidi esperar por ela à sombra de uns enormes choupos brancos. Passou poucos minutos depois, cheia de passageiros, muitos deles turistas que viajam na Linha do Tua por prazer. Estes são, cada vez mais.
Junto à Ponte da Carvalha, entretive-me a tentar fotografar as borboletas. As flores em volta da linha são poucas, ao contrário das borboletas que abundam, mas são muito ligeiras, voando ao mais pequeno movimento.

Pouco depois atravessei o Túnel de Frechas e a vista alargou-se de novo para o rio. A beleza deste vale está neste namoro constante, entre a linha e o rio que raramente se separam. Seguem o mesmo curso, traçam as mesmas curvas, rasgam as mesmas fragas, enfrentam as mesmas ameaças.
Entrei no troço em obras. Está a ser feita uma grande obra: construção de muros de sustentação, aquedutos de escoamento de águas; colocação de gravilha; substituição das travessas; nova soldadura dos carris. Estes são os melhoramentos que uns olhos não treinados vêem. Na zona em obras, é muito complicado andar pela linha. A gravilha cobre mesmo as travessas. Além de ser doloroso estar sempre a caminhar sobre este tipo de piso, é também perigoso. O facto de o pé não apoiar bem, aumenta o risco de entorses. São necessárias umas boas botas.
A zona das Latadas está completamente diferente. Há pouca água, mas as árvores, exuberantes, continuam a dar bastante beleza ao local.
Pouco antes de chegar à Quinta do Choupim, há uma zona plana, com pastos, que me deu grande gozo fotografar na Primavera. Como seria de esperar, agora estava tudo seco. Estava nessa zona quando passou uma nova automotora em direcção a Mirandela.
Era 1:50 da tarde e tinha quatro quilómetros para percorrer. Consultei os horários. Só tinha transporte de Mirandela para o Cachão às 16:14, por isso não tinha necessidade de me apressar.

Dois quilómetros antes de chegar a estação de Mirandela, encontrei o local onde decorriam as obras de substituição das travessas mais velhas. O trabalho é feito durante a noite, uma vez que é necessário arrancar os carris, por isso, não se via ninguém a trabalhar.
Cheguei junto da Ponte Europa. O ambiente era de festa. Do outro lado do rio via-se e adivinhava-se, grande animação, mas ainda contida, dado o calor da tarde.
Demorei bastante tempo a percorrer o último quilómetro. Parava a cada instante, espreitava o rio através do jardim. Sentei-me na relva, retirei as sapatinhas e a maior parte das sementes que levava presas às meias.
Às três e meia da tarde, atravessei todo o Parque do Império e parte da Ponte Românica para tirar algumas fotografias e comprar água fresca. Neste percurso não tive problemas com a água. As três garrafas pequenas que levei, chegaram-me até Mirandela. Apesar do sol, circulou sempre algum ar fresco e não transpirei muito, talvez também pelo facto da linha se encontrar mais próxima da frescura do rio, coisa que não acontece nos troços do início da linha.

À hora da partida da automotora, já estava na estação. Estava completamente lotada, também não me importei, viajo sempre de pé. Muitas das pessoas eram turistas. Alguns vão de carro até ao Tua, fazem o percurso ascendente, almoçam em Mirandela e voltam ao Tua pela tarde.
Com a aproximação do Verão, as automotoras circulam sempre cheias. A linha tornou-se uma atracção turística, mais pela polémica, do que pela promoção que as autarquias fazem. Antes pelo contrário, algumas autarquias, escondem o Rio e a Linha do Tua, com receio que as suas ideias mercantilistas sejam postas à prova, contrariando a ideia de que a linha não é utilizada.
Regressei ao Cachão na automotora. Completei com este percurso, duas voltas à linha, entre Foz-Tua e Mirandela. Talvez quando chegar o mês de Outubro me anime a percorrê-la de novo, em busca das cores do Outono. Até lá, vou-me deliciando com centenas e centenas de fotografias e as recordações de passeios inesquecíveis.